Sidarta

Jornal de artes e personagens, apresentando entrevistas, artigos, contos, poemas, fotos e imagens


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SONIA COUTINHO FALA DO "OVELHA"


Entrevista a Elias Fajardo


Sonia

Elias - Neste novo livro, você investe numa concisão de linguagem, num despojamento, que vai da maneira de pontuar à de criar parágrafos. Isto é construído, intencional, ou tem alta dose de espontaneidade?
Sonia - Essa é uma maneira de escrever que desenvolvi nos últimos anos, acho que começando já com "Os seios de Pandora," de 1998, e continuando em "Mil olhos de uma rosa," "Guerreira Maria" e agora em "Ovelha Negra e Amiga Loura."
Não é uma tomada de posição cerebral nem intencional. Tem mais a ver com uma nova atitude minha diante da vida, inspirada no pensamento oriental, no Budismo.
Sabe aqueles jardins japoneses feitos só de areia e com algumas pedras apenas, aqui e acolá? Sinto, atualmente, uma imensa afinidade com essa estética.
Tenho levado uma vida solitária e despojada e entrou nela uma compreensão, digamos, da humildade e da simplicidade.
Mas falar dessas coisas é um perigo, pode soar falso, tolo e pretensioso. Não pretendo ter atingido a iluminação.
Continuo escrevendo pequenos contos cheios de paixões humanas terríveis, mesmo que veladas.
Mas o fato é que passei, quase sem perceber, a usar frases mais curtas, parágrafos mais curtos, um mínimo de palavras. Digamos, uma escrita minimalista.
Não tenho condições de avaliar o resultado "literário" de tudo isso. Veio assim, foi o que pude fazer.
Elias - Acho que você consegue seus momentos de maior maestria quando abandona os elementos que poderiam ser lidos como autobiográficos e parte para os conflitos dos homens e mulheres premidos pela angústia de existir. Um bom exemplo me parece o conto "D de Descoberta." O que pensa disso?
Sonia - Li, recentemente, um livro muito interessante da escritora espanhola Rosa Montero, sobre a arte de escrever: "A louca da casa." Está dito nele que, de uma forma ou de outra, todos os textos de ficção são autobiográficos. O escritor sempre parte da sua experiência, mesmo que seja uma experiência indireta. Se não fizer isso, escreverá coisas idiotas, mecânicas, talvez best-sellers baratos.
Mesmo nesse "D de Descoberta," de alguma forma eu sou, ao mesmo tempo, os três personagens que aparecem: o fotógrafo, a mulher de 34 anos, o marido cafona.
Mas ninguém pense que há autobiografia, em sentido estrito, em qualquer dos meus textos. Não se trata nunca de "realidades", quem pensar assim cairá numa ilusão.
É como acreditar que uma imagem que aparece num quadro é uma imagem "real." A pintura é sempre, claro, uma superfície plana. Magritte pintou um cachimbo e escreveu embaixo, no quadro mesmo: "Cette pipe n'est pas une pipe."
Por outro lado, acho que uma análise da obra das escritoras deve passar por sua vida - um procedimento até já antigo, mas que deve, em minha opinião, ser resgatado. A escrita das mulheres se realiza em condições próprias, específicas, daí acho que a vida delas pode esclarecer muita coisa.


Capa do "Ovelha"

Elias - Sua novela sobre Maria Quitéria, escrita também nessa linha "minimalista," me pareceu muito nova e surpreendente, pois aborda de forma sutil algo que muitos outros autores tenderiam a tratar em termos épicos. De onde tirou essa abordagem? Você não pensaria em ampliar este livro, ou em fazer outras tentativas na área da ficção sobre temas históricos?
Sonia - Meu grande foco de interesse não foi exatamente o momento histórico e épico da luta pela Independência, mas o gesto individual de Maria Quitéria, de se vestir de homem e ir lutar na guerra. Isto, em pleno século XIX, com toda a atmosfera de preconceito e opressão que cercava as mulheres.
Então, dei uma voz a Quitéria, falei por ela. Claro, a atitude da heroina tem tudo a ver com a luta das mulheres, ao longo da história e, de forma mais acentuada, nas últimas décadas, para transcender os papéis impostos, as barreiras sociais. São coisas que me interessam e vêm aparecendo em minha literatura.
Penso sim em mudar esse livro, ampliá-lo, ele não me parece definitivo, pretendo encontrar outra "solução" para ele. Mas agora não penso mais em recorrer a novos dados históricos - ficcionalizar a História não é bem a minha praia - mas sim em partir para outros caminhos, e juntar tudo.
Com relação a esse pequeno livro, gosto sempre de lembrar que ele resultou, antes de mais nada, de uma pesquisa encomendada. Quem encomendou foi o querido amigo Waly Salomão.
Elias - Seu livro "Os venenos de Lucrécia" é um dos que mais aprecio, porque nele a fantasia desvaira, mas sempre parecendo surpreendentemente real. Como foi, trabalhar nessa direção?
Sonia - Esse elemento "mágico," ou fantástico, aparece não apenas em "Os venenos de Lucrécia," mas também em "Atire em Sofia" e muito em "O caso Alice," além de estar ainda em outros contos meus, de que não me lembro neste momento.
São tendências que surgem em nosso trabalho através de leituras, de um clima do período, mas, sobretudo, de elementos que nascem mesmo do nosso inconsciente.
Elias - Diria que, para você, a literatura tem sido uma companheira e amante fiel, ou é uma madrasta, que traz mais sofrimento do que prazer?
Sonia - Muitas vezes, já me revoltei contra as condições em que produz o escritor brasileiro, contra a falta de um público mais amplo para nosso trabalho, contra a situação relegada em que o autor se encontra, entre nós.
E alguns períodos de turbulência pessoal me fizeram calar temporariamente a boca, parar de escrever. Mas, para mim, a literatura sempre volta.
Fazendo um balanço geral, acho que escrever tem contribuído para a minha normalidade mental, como instrumento de comunicação e integração. Portanto, resumindo, para mim a literatura nada tem de madrasta, na verdade é uma grande companheira.
Elias - Você está satisfeita com o resultado que obteve até agora com o livro "Ovelha Negra e Amiga Loura"?
Sonia - Estou, sim, e até surpresa. Adorei a resenha do livro que fez o Adriano Koehler, no "Rascunho." E tive outras duas resenhas simpáticas, neste último sábado, uma da pesquisadora Isabel Travancas e a outra do escritor baiano Aleilton Fonseca, respectivamente em "O Globo" e "Jornal do Brasil."
Recebi, além disso, algumas maravilhosas manifestações de apoio pessoal. Entre outras, destaco duas mensagens telefônicas, uma da escritora Rachel Jardim e outra do professor Luiz Fernando Medeiros. Houve também um cartão muito bonito do poeta Ivan Junqueira e uma carta linda e espontânea da crítica baiana Gerana Damulakis. São pessoas de quem gosto, que admiro.
Também me apoiaram o escritor André Giusti, em Brasília, com sua revista eletrônica "Messaginabótou" e o poeta Luiz Edmundo Alves, em Belo Horizonte, com a revista "Tanto."
Por outro lado, adorei o visual do "Ovelha Negra e Amiga Loura" um livro feito pela Editora 7 Letras e por seu sempre caprichoso editor, meu amigo Jorge Viveiros de Castro.

Elias Fajardo é jornalista e artista plástico. No momento, ele prepara uma mega exposição das suas telas em Cataguases.


 

UPDIKE E O EXPRESSIONISMO ABSTRATO



Jackson Pollock, óleo sobre tela, 1952

Apenas duas mulheres, uma pintora e a jornalista que a entrevista. As respostas dadas por Hope Chafetz à sua entrevistadora, com algumas poucas intervenções do narrador, compõem as mais de 300 páginas de prosa cintilante (na excelente tradução de Paulo Henriques Britto) e minuciosamente detalhada de "Busca o meu rosto," de John Updike, povoadas de figuras que se inspiram em artistas plásticos americanos do período pós 1940, quando surgia o Expressionismo abstrato.
Sem se preocupar com a construção de uma trama propriamente dita, Updike, acompanha os movimentos de Hope, 79 anos, e Kathryn, dentro de uma casa e seus terrenos. Lembrando sua vida, a pintora evoca as atividades da glamourosa "Escola de Nova York," que colocou os Estados Unidos, pela primeira vez, na linha de frente da vanguarda artística internacional.
Updike, nascido em 1932, é autor de mais de 50 títulos, incluindo ficção, poesia e ensaio. Foi a série de quatro romances em torno da vida do atleta Harry "Coelho" Angstron, iniciada em 1960 com "Coelho, corre," que o tornou famoso. "Busca o meu rosto," de 2002, tem um título enigmático, tirado de um salmo bíblico.
Embora Updike declare, em nota prévia, que se trata de uma obra de ficção, sem nada de necessariamente verdadeiro, qualquer pessoa de leve familiarizada com a arte americana do pós Segunda Guerra identificará Jackson Pollock na pele de Zack McCoy, ex-marido de Hope e, em menor medida, Andy Warhol (já da Pop Art), como Guy Holloway.
Pollock foi casado com a pintora Lee Krasner que, como a Hope de Updike, durante a vida do marido famoso era obscura e ignorada, vivendo à sombra dele e só mais tarde alcançando a consagração.
Além dos personagens centrais, o livro está recheado com outras figuras baseadas em artistas reais - e com nomes semelhantes aos deles. Tudo indica, por exemplo, que Onno de Genoog vem de William de Kooning; Bernie Nova, de Barnet Newmann; Hermann Hochman, de Hans Hoffman; Ruck, de Mark Rothko; e Korgi, de Arshile Gorky. Não falta, nesse, time o grande crítico de arte da época, Clement Greenberg, chamado apenas de Clem.
No período, muitos artistas europeus, fugindo da Segunda Guerra, refugiaram-se em Nova York e se ligaram aos jovens de lá, exercendo uma influência importante. Ao contrário dos americanos, eles são citados por Updike com seus nomes verdadeiros, como é o caso de Marcel Duchamp, Mondrian, Max Ernst, Dali.
Updike tem base para o conhecimento de artes plásticas que revela em "Busca o meu rosto:" ele iniciou suas atividades profissionais como desenhista, fazendo cartuns para um jornal universitário, em Harvard.
Também estudou desenho durante um ano universitário e é autor, além de inúmeras resenhas literárias, de estudos sobre artes plásticas, já reunidos em livro.


John Updike

Em seus romances anteriores, a atenção de Updike se voltou quase sempre para as pessoas comuns da classe média americana, que ele critica com seu detalhado realismo literário, pondo em cena sexo e morte. "Busca o meu rosto" se diferencia da maior parte dessa produção por abordar a vida dos famosos.
Uma curiosidade, neste livro recheado de curiosidades, é o fato de Updike, que já foi acusado de "politicamente incorreto," inclusive pela maneira como trata as figuras femininas, desta vez assumir o ponto de vista de uma mulher que acaba por se libertar dos homens.
Mas, às vezes, há uma nota falsa na fala de Hope, que corre o risco de se transformar em mero alter-ego do autor, servindo de porta-voz para seus pensamentos sobre arte e outros assuntos, como o próprio feminismo.
Quando Kathryn lhe pergunta: "Você acha que os homens e as mulheres vêem igual? Pintam igual?", Hope pensa: "A pergunta é feminista, mas não é necessariamente burra," frase que poderia sair diretamente da boca de Updike.
Mas "Busca o meu rosto" tem momentos mais felizes. É simplesmente sublime o trecho em que Hope descreve "Zack" - Pollock - pintando com a técnica "dripping," que inventou.
A partir dos anos 90, a crítica não tem sido tão simpática quanto costumava ser para com livros de Updike, o que não o impede de continuar produzindo maciçamente, em ritmo de quase um romance por ano. Depois de "Busca o meu rosto" saiu "Villages" em 2004, e "Terrorist" estava em preparo. E ele continua lembrado para o Nobel.
Resta decifrar o título de "Busca o meu rosto." A epígrafe fornece uma chave, ao citar o Salmo 27: "Quando tu disseste: busca o meu rosto, o meu coração disse a ti: O teu rosto, Senhor, buscarei."
E, em seguida, ainda como epígrafe, vem um trecho de Czeslaw Milosz: "... a idéia de que a beleza visível reflete, em pequeno, a beleza do ser."
No texto, Hope diz, referindo-se a um pintor do grupo: "...ele nos convenceu de que fazer arte era a atividade humana mais elevada e mais pura, o mais próximo que se podia chegar de Deus, o Deus que cria a Si próprio nesse jogo de cores a avançar e recuar."
Em última instância, a melhor leitura para "Busca o meu rosto" será, provavelmente, a de quem deixar de lado o "tempero" das referências a figuras conhecidas e se limitar à pura ficção.
Assim, dá para perceber que se trata de um romance sobre a velhice, escrito por quem tem experiência dela. E dá ainda para refletir sobre a proposta essencial de Updike - provavelmente, uma indagação em torno da criação artística, do ser e do belo.
A busca da beleza não será, para Updike, com sua notória formação religiosa, uma busca do rosto de Deus?

Sonia Coutinho

BUSCA O MEU ROSTO, de John Updike, Editora Companhia das Letras, 314 pgs.


 

A sensualidade de Sosígenes Costa
em livro de Florisvaldo Mattos.
James Amado comenta




"Travessia de Oásis" é um livro de clara e rara beleza: a musa grapiúna mira-se em seu próprio espelho. Florisvaldo Mattos devassa os arcanos, arcanos já não se diz, da poesia sosigeneana e desvenda o veio permanente do seu sensualismo no processo de conversão da ralidade em poesia. A prosa é simples, leve, sensível, quase tímida, quase didática. Em certos trechos, porém, o texto parece rebelar-se, alteia-se, nostálgico do verso, quer ser poema. Estes são os momentos mais belos do livro. Outo destaque é a aproximação entre Sosígens Costa e Konstantinos Kavafis, mestres helênicos de Alexandria e Belmonte, vates afins na mesma excelência poética. Vale lembrar que Kavafis foi introduzido na cultura brasileira, em tradução, por José Paulo Paes. No fim do volume, uma breve antologia permite que o leitor torne sua a travessia do oásis.


 

LENA BERGSTEIN


Relação entre arte e escrita
em oficina no Parque Lage



Lena

Sidarta - Conte para nós, Lena, qual foi o projeto e do que você está tratando, em sua oficina na Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
Lena - O projeto foi: criar uma oficina articulando o trabalho de criação na área das artes plásticas com uma pesquisa teórica sobre as relações entre a arte e a escrita. Uma experiência interdisciplinar, um modo de atravessar as fronteiras de diferentes campos de expressão.
Sidarta - Quais são os objetivos da sua oficina?
Lena - Desenvolver uma sensibilidade e de um olhar para arte estimulando a capacidade criativa de cada participante. Desenvolver uma linguagem plástica através do uso dos elementos formais de desenho: ponto, linha, plano, forma e espaço, e respectiva organização desses elementos. Dar elementos teóricos e exercícios práticos que possibilitem uma compreensão ampliada das relações entre imagem e texto.
Sidarta - Como funciona a parte prática?
Lena - A prática se realiza com o uso de técnicas de desenho e impressão: rolos, estênceis, monotipias, uso de xerox, impressão com acetona, colagem e computação.
Sidarta - E na parte teórica, o que você leva ao grupo?
Lena - Levo uma história da arte pautada nas relações da arte e da escrita, através dos tempos. Vou enumerar alguns pontos abordados: as escritas pictográficas e ideográficas da Mesopotâmia; os hieróglifos do Egito; pintura, escrita e poesia no signo chinês; a caligrafia árabe; a relação dos judeus com o livro e o escrever; influência e pontes com os movimentos artísticos do século XX; a avant-garde russa etc.
Fundamental também é a história dos suportes. Desde o barro e a pedra, até o pergaminho e o papel. Álbuns, rolos, códex, cadernos e volumes, desde o manuscrito até o aparecimento do livro propriamente dito. Cada suporte e seus utensílios marcam um diferente gesto gráfico.


 

TRÊS POEMAS DE MAYRANT GALLO



Fiona Rae, sem título, 1996

Termo

Já fui o tempo,
Quando pequeno.

Julguei-me eterno,
Preso a um elo.

Flagrei o erro,
Ao concebê-lo.

O tempo agora
É só memória:

Se não me toca,
Também não poda:

Movo-me livre
Para o esquife.

Dissolução

Muitas vezes morri nos sábados.
A morte mais dorida, a sós, à caída do sol.

Era simples e infeliz.
Era jovem e já sangrava.

Onde eu estava? Em mim.
E então perdi-me...

Agora nem o espelho me devolve.
Fui-me - como no céu as nuvens...

Pó e palavras

Que pus eu nesta vida,
Senão os livros que um dia,
Outro dia,
Ninguém lerá?

Que pude pôr e não pus?
Que pó fui?

Sobre estantes
Ou sob tapetes,
Onde estarei?

Não sei onde,
Nem sei se em alguém.

Mas não importa:
Já tendo sido um dia
Sempre serei na vida.

Se não palavras, pó.
Se não pó, palavras.


Mayrant Gallo, poeta e contista, nasceu em Salvador em 1962. Publicou "Dia sim e sempre," (2000) e "O inédito de Kafka," entre outros livros. Estes poemas foram tirados de "Recordações de andar exausto,"(2004). Mayrant, professor de Teoria da Literatura, colabora regularmente com o "Correio da Bahia" com contos, crônicas e ensaios.


 

DOIS CONTOS DE CARLOS HENRIQUE SCHROEDER



Carlos Henrique

As certezas e as palavras

Para Cássio

Se excluirmos a morte, ao nascermos, duas outras certezas nos acompanharão: a de que seremos filhos frustrados, num determinado momento, e pais inseguros em outro.
Cássio sabia disso e coçava a cabeça quando essas certezas lhe afligiam certeiras, e mesmo com as insistentes reprovações de Sarah, o incerto Cássio coçava e coçava, e por entre seus finos cabelos, se bem perscrutássemos, as feridas existiam. Cássio também tinha a certeza de que não choraria no enterro de seu pai. Não me surpreendo. Nunca o vi chorar nesses quinze anos que o conheço, nem uma lágrima, sequer um brilho etéreo nos olhos, apenas um campo vasto e esverdeado nas pupilas. Ele se culpa por não nutrir nenhum sentimento, nenhum mesmo, pelo pai, nem amor, nem ódio, eu não entendo e ele não consegue me explicar. Ele acha que não sabe educar os filhos, mas eu lhe digo, e quem sabe? Quando me mostrou sua coleção de tampas de caneta, pensei que nada mais pudesse me surpreender nele, mas Sarah, sua esposa, me confidenciou algo. Cássio tem fixação por uma palavra, da qual eu nem sabia o significado, mas descobri: afinal, era o sétimo verbete da terceira coluna da página 2.072 do Dicionário Houaiss. Segundo Sarah, ele se diverte criando historietas com a palavra opróbrio. Pelo que eu sabia, Cássio era um ágrafo e suas obras completas poderiam se resumir a suas assinaturas no talão de cheques. Também não me lembro de Cássio ter lido um livro sequer na vida, e fiquei ainda mais surpreso quando certo dia Sarah me entregou uma de suas histórias num guardanapo: "Há na palavra opróbrio algo de indecente, até mesmo pornográfico, talvez seja a exposição indecorosa das três letras o, sugerindo um casal e o filho assassinado com uma facada nas costas, ou ainda um casal e seu filho punk. Não consigo vislumbrar nada em pró desta palavra, tampouco brio, em duas sílabas espremidas entre vogais, sufocadas, reticentes, impróprias. Dentre as palavras com oito letras, ela é, sem sombra de dúvida, a mais perigosa. Esconde em suas letras a simbologia do assassinato: o p matou o r com a ajuda do o e uma faca aguda, e ainda com a ajuda de b jogaram o corpo no rio. Reparem que este é um momento revelador da língua portuguesa, talvez até o Holanda e o Houassis possam levantar de seus túmulos, afinal, não é sempre que descobrimos que um substantivo masculino é na verdade um substantivo maldito, e que esconde um caso de amor entre duas palavras do mesmo sexo, e vizinhas: p e r".
Disse para Sarah que isso tinha um nome: - Obra-prima?, perguntou. - Esquizofrenia!, disse eu. Não levamos a sério meu diagnóstico. Afinal, ele tinha me ensinado uma palavra nova. Nunca cheguei a comentar sobre isso com ele, nem poderia. Mas gostaria, pois estava ficando chateado por, toda vez que conversava com Cássio, ele retomar o assunto das certezas. E eu tinha que engolir em seco minhas duas certezas, que não podiam ser compartilhadas. A primeira, de que ele era um corno, a segunda, de que o terceiro filho dele, de apenas 2 anos, era na verdade meu filho. Ele me ensinou uma palavra, mas fui eu quem ensinou a Sarah o último verbete da terceira coluna da página 2.079 do Dicionário Houaiss: orgasmo. A verdade dói mais do que as palavras. Ambas são mortais. E prefiro, muitas vezes, me abster dessas armas, pois se amo o cheiro que emana dentre as pernas de Sarah, amo sobretudo a mim, e também a Cássio, meu primeiro, e talvez único amigo. E se algum dia meu telefone tocar e uma voz gritar inúmeras vezes a palavra opróbrio, só restará aos meus pulsos o beijo frio da lâmina de barbear.


Tela de Rocio Maldonado, sem título, 1987

AS BRASAS

Queimaduras 1

Com o olhar arenoso, Jorge filtrava a água lamacenta do rio em que pularia. Em uma das mãos, a cópia do seu último original: um poderoso livro de contos, sua obra-prima. Na outra, um cigarro filtro-amarelo dos mais baratos. Na cabeça, um pensamento: conseguiria ver as letras se dissolver, escorrer na água? O cigarro pela metade, Jorge mira e joga contra o leitor, pula.

Queimaduras 2

O leitor tampa um olho, fecha o livro, arde ou ardor? O cigarro jaz na terra, o contista na água, o leitor, na brasa.

Queimaduras 3

De um ponto-cego, o narrador onisciente se compraz: o contista acerta o leitor, vê perfeitamente o momento em que o cigarro salta do livro, mas também o olhar perdido do contista na água, em busca das letras. O narrador se incendeia.


Quem é Carlos Henrique Schroeder

Nascido em Trombudo Central (SC) em 1975, Carlos Henrique Schroeder é romancista e dramaturgo, estreou na literatura em 1998 com a novela O Publicitário do Diabo (Manjar de Letras). Seguiram-se As sepulcrais (1999, Manjar de Letras), A ilha de Eros (2000, Manjar de Letras), Dueto (2001, Manjar de Letras), Reféns subliminares (2001, Manjar de Letras), A ilha navegante (Scortecci, 2003) e A rosa verde (EdUFSC/UNERJ, 2005), em abril sai seu oitavo livro, o romance Ensaio do Vazio (7 Letras). Autor de inúmeras peças de teatro, com destaque para Hamlet 40 Graus (encenada em 1995), Caminhos (encenada em 1997) e Ás Avessas (encenada em 2004).

É diretor-executivo da Editora da APEIJAS (Associação de Escritores de Jaraguá do Sul), editor da Design Editora, coordenador gráfico da Editora Unerj e coordenador geral do Núcleo de Dramaturgia Álvaro de Cárvalho.